Salmo 23 — «O Senhor é meu pastor»
Há três mil anos que estas palavras seguram pessoas quando mais nada as segura. Se chegaste aqui numa noite difícil, começa apenas por lê-las devagar — o resto pode esperar.
O Senhor é meu pastor, nada me falta:
em verdes prados me leva a descansar.
Conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.Ele guia-me pelos caminhos retos,
por amor do seu nome.
Mesmo que eu ande por vales tenebrosos,
não temerei mal algum, porque Tu estás comigo:
a tua vara e o teu cajado me dão coragem.Preparas a mesa para mim,
à vista dos meus inimigos;
com óleo me perfumaste a cabeça,
e a minha taça ficou a transbordar.Sim, a bondade e a misericórdia me acompanharão
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
ao longo dos dias.
Este é o Salmo 23 (22) na tradução oficial da Conferência Episcopal Portuguesa. Na Missa e nas exéquias ouve-se na versão do Lecionário, em que o coração do salmo se dirige a Deus com o «Vós» tradicional: «não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo». As palavras variam ligeiramente; a oração é a mesma.
O que o Salmo 23 diz, linha a linha
«Nada me falta.» Quem reza isto não é alguém a quem nada falta. David conheceu a fuga, a traição, a morte de um filho. «Nada me falta» não é um inventário — é uma decisão de confiança: com este Pastor, o essencial não me vai faltar. Às vezes reza-se com a voz firme; muitas vezes reza-se com a voz a tremer. Vale das duas maneiras.
«Em verdes prados me leva a descansar.» Repara: a primeira coisa que o Pastor faz não é exigir — é deitar-te. Para quem vive a correr, cansado, sem conseguir parar, esta linha é quase uma ordem de médico: o descanso não é preguiça, é pasto. Deus começa por cuidar do teu corpo cansado.
«Mesmo que eu ande por vales tenebrosos…» O salmo nunca promete que o vale não existe. Promete companhia dentro dele. E há aqui um pormenor que muda tudo: até este verso, o salmo falava de Deus — «Ele guia-me». No escuro, passa a falar com Deus — «Tu estás comigo». É o que acontece a quase toda a gente: enquanto a vida corre bem, falamos sobre Deus; quando o vale chega, falamos-Lhe. Talvez por isso este seja o versículo mais sussurrado nos corredores dos hospitais.
«Preparas a mesa para mim, à vista dos meus inimigos.» A paz que Deus dá não chega depois de os problemas desaparecerem — a mesa é posta à frente deles. Os teus «inimigos» podem ser um diagnóstico, uma dívida, uma saudade. Continuam à vista. E, ainda assim, há uma mesa, há um lugar com o teu nome, há um anfitrião que te serve.
«Com óleo me perfumaste a cabeça.» No Oriente antigo, ungir a cabeça de um hóspede era recebê-lo com honra. Para um cristão, este óleo tem eco no Batismo e na Unção dos Doentes: mesmo doente, mesmo de rastos, não és um caso — és hóspede de honra na casa de Deus.
«E habitarei na casa do Senhor.» O salmo acaba em casa. E no original hebraico o verbo da última estrofe é mais forte do que «acompanhar»: a bondade e a misericórdia perseguem-te. Passamos a vida com medo do que nos persegue; o salmista descobriu que, no fim, o que corre atrás de nós é a bondade de Deus.
Quando este salmo carrega uma pessoa
No luto. Em Portugal, o Salmo 23 é dos textos mais ouvidos nas exéquias — muitos de nós ouviram-no pela primeira vez num funeral. Quando a dor tira as palavras, rezar palavras emprestadas não é pouco: é ser carregado. E há consolo em rezar as mesmas linhas que a tua avó, o teu pai, talvez tenham rezado antes de ti.
No hospital. Salas de espera, vésperas de cirurgia, noites de quimioterapia. O salmo é curto o suficiente para caber na memória e numa maca. Se só conseguires guardar três palavras, guarda estas: «Tu estás comigo».
Na perda. Um emprego, uma casa, um casamento. Dizer «nada me falta» com lágrimas nos olhos não é mentir — é um protesto de confiança contra a evidência. É das orações mais honestas que existem.
Na ansiedade da noite. Se são 23:40 e a cabeça não para, reza-o deitado, de olhos fechados, uma linha por respiração. Não precisas de o acabar: adormecer a meio de um salmo é adormecer nos braços d'Ele.
Como rezar o Salmo 23 devagar
- Prepara o silêncio. Afasta o telemóvel, acende uma vela se ajudar, faz o sinal da cruz sem pressa.
- Lê o salmo inteiro uma vez, em voz baixa se puderes. Não para o analisar — só para o ouvir.
- Volta ao princípio e reza uma linha por respiração. Inspira com a frase, expira em silêncio. O ritmo lento é a oração.
- Quando uma linha te tocar — ou te doer — para aí. Repete-a duas, três, dez vezes. «Tu estás comigo» pode ser a tua oração inteira desta noite, e chega.
- Nomeia o teu vale. Diz a Deus, por palavras tuas, o que estás a atravessar. Dar-lhe nome diante d'Ele já é rezar.
- Termina com um Glória ao Pai e fica mais um momento calado, como quem não quer sair já da sala.
Um conselho de quem visita doentes: decora um versículo — só um — e leva-o contigo durante o dia. No corredor do hospital ou na fila do trânsito, ele volta sozinho quando é preciso.
Perguntas frequentes sobre o Salmo 23
O que significa «O Senhor é o meu pastor, nada me faltará»?
Não é uma promessa de que nunca faltará dinheiro, saúde ou pessoas. É a confiança de uma ovelha num pastor bom: com Ele, o essencial não me faltará — nem no vale. Por isso este versículo é tantas vezes rezado precisamente por quem sente que lhe falta quase tudo.
O Salmo 23 e o Salmo 22 são o mesmo salmo?
Sim. A numeração hebraica, usada na maioria das Bíblias, chama-lhe Salmo 23; a numeração grega e latina, seguida pela liturgia católica, chama-lhe Salmo 22. Por isso nos folhetos da Missa em Portugal aparece como «Salmo 22 (23)». É exatamente o mesmo texto.
Quem escreveu o Salmo 23?
A tradição atribui-o ao rei David, que na juventude foi pastor de ovelhas em Belém. As imagens dos prados, do cajado e do vale nascem de uma vida que ele conhecia por dentro. Terá sido escrito há cerca de três mil anos — e continua a dizer o que precisamos de dizer.
Quando se deve rezar o Salmo 23?
Não há hora errada, mas há horas em que ele é especialmente dado: no luto, na doença, na véspera de uma operação, numa noite de medo. Em Portugal é dos salmos mais rezados nas exéquias e junto dos doentes. E também se reza em ação de graças — a mesa posta e a taça a transbordar são imagens de festa.
Posso rezar o Salmo 23 por outra pessoa?
Podes, e é das formas mais bonitas de o rezar. Diz o salmo devagar pondo o nome dela dentro: «O Senhor é o pastor da minha mãe; mesmo que ela ande por vales tenebrosos, Tu estás com ela.» É uma maneira de entregar quem amas ao cuidado do Pastor.
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